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Vida, propósito e existencialismo em RICK e MORTY

Vida, propósito e existencialismo em RICK e MORTY Posted on Novembro 27, 20171 Comment

A série Rick e Morty” já ganhou milhões de fãs por todo o mundo. O existencialismo é um traço marcante em todos os diálogos dessa incrível série.

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Não se trata de uma narrativa convencional. O enredo se desenvolve numa espécie de multiverso, Rick cria um aparelho que permite a abertura de portais para outras realidades, contando com a ajuda do seu neto Morty em diversas aventuras.

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Encontramos, de forma cômica ou dramática, uma trama extremamente humana, com dilemas de uma família desestruturada, os desafios da adolescência, reflexões sobre sentimentos e vida em sociedade,  monstros de Cronenberg e meditações sobre o lugar da humanidade no universo.

Rick é um cientista genial, frio, alcoólatra e cínico. Ele é considerado o homem mais inteligente do universo. Impulsivo e de personalidade forte. Muito egoísta e imaturo. Morty é o neto de apenas 14 anos de Rick. O lado mais humano da história, deseja o que qualquer adolescente quer – se safar na escola, ser percebido pela garota mais bonita da sala, terminar os deveres de casa e ver a família numa boa.

Num mesmo episódio podemos ver besteirol, piadas sem graça, humor pesado e conceitos elaborados pelo existencialismo, pessimismo, visões niilistas e a filosofia do absurdo. Notamos isso, por exemplo, em “Rixty Minutes”, quando Morty diz a sua irmã Summer, “Ninguém existe de propósito. Ninguém pertence a qualquer lugar. Todo mundo vai morrer… Venha assistir TV”. Os personagens não transitam apenas por lugares diversos do multiverso, eles questionam o sentido da vida, a ética e os limites da ciência. É possível verificar pequenas doses de Nietzsche, Camus e Schopenhauer em alguns momentos.

O grande cientista Rick, para ajudar o neto, chega a discorrer sobre o amor:

“O que as pessoas chamam de amor é apenas uma reação química que obriga os animais a se reproduzir. Isso te atinge de um jeito Morty, e então vai desaparecendo lentamente, deixando você encalhado em um casamento falho. Eu fiz isso, seus pais vão fazê-lo. Quebre o ciclo, Morty. Levante-se. Concentre-se na ciência.”

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Não é normal se preparar para assistir um desenho na TV e se ver diante de cenas que retratam a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao porquê. Os conceitos morais e filosóficos são tratados de forma não convencional, na medida em que Rick e Morty cometem inúmeras atrocidades em nome da liberdade. E a percepção de realidade expressa na série procura evidenciar a própria inferioridade da vida diante da vastidão do universo.

Não é apenas um desenho com piadas obscenas e links para entreter os nerds. E isso pode ser verificado em algumas falas, já no primeiro episódio:

“Não há nenhum Deus Summer. É melhor acabar com isso logo, vai me agradecer depois.”

“As escolas são uma perda de tempo, gente correndo para cima e para baixo. Um cara na frente diz ‘2 + 2’, um outro no fundo responde ‘4’… Não é um lugar para gente inteligente, Jerry.”

Em uma dimensão fantástica e diferente, Morty diz: “Tudo isso está me dando ansiedade”, e Rick responde: “Tudo bem, fique calmo. Escuta, Morty. Sei que as situações novas podem ser intimidantes. Você olha a sua volta e tudo é assustador e diferente, mas se você enfrentar isso, se for de cabeça como um touro, essas serão as coisas que nos farão crescer”. Posteriormente Morty volta a resmungar: “Quanto tempo falta? Eu não deveria já estar de volta ao colégio?” e Rick responde: “Você tá de brincadeira? Olha tudo isso a sua volta… Você acha que vai ver isso no seu colégio?”.

Os personagens costumam falar sobre suas crises existenciais e tais crises sempre provocam algum tipo de aprendizado para eles. Nessa perspectiva, talvez a série nos ajude a encarar as nossas crises existenciais de forma leve e bem-humorada.

Marcio Krauss é mestre em Filosofia, especialista em Ciência Política e Cultura Pós-moderna, além de atuar como professor de Ciências Humanas. Confessa-se um apaixonado pela área de Educação e um estudioso dedicado aos temas da contemporaneidade. Redator da página Sociologia Líquida e escreve semanalmente para nosso site.

Por: O Martelo de Nietzsche

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