Análise filosófica sobre a série Justiceiro: O Leviatã da Marvel

O outubro de 2017 começa com um massacre em Las Vegas, Nevada, onde 59 pessoas foram mortas e 546 feridas devido. Cerca de uma semana após a tragédia, Netflix e Marvel preparavam a estreia do elenco de sua nova série O Justiceiro. Por uma questão de coerência a data do lançamento da nova série foi marcada de forma oficial para o dia 17 de novembro.

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Originalmente criado para ser uma espécie de antagonista nas histórias do Homem-Aranha, logo, a sua primeira aparição em 1974 recebeu aclamação por parte da crítica, e acabou por se tornar um anti-herói dentro do Universo Marvel. Frank Castle, nascido no Queens, Nova York.  Fez carreira militar, tornando-se capitão dos Fuzileiros Navais dos EUA, lutou no Vietnã como um dos melhores no campo de batalha. Ao retornar, casou e teve dois filhos. Considerado como herói de guerra, foi prestigiado e condecorado. Num momento de lazer com a sua família no Central Park, testemunhou o conflito entre duas facções criminosas o que fez com que os assassinos disparassem suas armas contra Frank, sua esposa e filhos. Ele foi o único sobrevivente. Ou não, pois Frank Castle deu lugar ao Justiceiro.

O Mal e o Bem na Série

A trama começa precisamente como se poderia esperar na trajetória de um protagonista da Marvel Comics: atuando como juiz, júri e executor ante os criminosos. Ele possui seu próprio código de honra, destruindo sistematicamente os bandidos que encontra pela frente, ao invés de conduzi-los às autoridades. Embora demonstre humanidade e resignação ao longo de sua trajetória. Importante ressaltar que a narrativa não faz apologia à violência, mas proporciona uma grande reflexão acerca das consequências dela. Além da percepção de que o mal está enraizado até entre aqueles que deveriam ser do bem. E para conter o mal, aparentemente, o Justiceiro surge como uma espécie de mal maior.

Segundo o grande pensador político moderno Thomas Hobbes  todos os indivíduos são iguais e, desse modo, cada um tem o direito de exercer sua força para proteger seus interesses particulares. Assim, prevalece um tipo de luta de todos contra todos para defender seus direitos. Para equacionar tal impasse somente com a consolidação do Estado, que o autor chama de Leviatã, que irá proporcionar segurança para todos, que inclusive abrem mão de sua liberdade, assim, é instaurada a paz social, já que num primeiro momento o que predomina é uma guerra generalizada de todos contra todos. O soberano seria, nesse sentido:

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“Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum.” (p. 106)

Essa pessoa, representante de todas as partes do contrato social, deve possuir poderes ilimitados para garantir a paz e a segurança comum. E para viabilizar a manutenção deste poder soberano, ameaçado pela maldade dos indivíduos, será fundamental uma autoridade forte, capaz de reprimir esses instintos e assegurar o Estado civil. De acordo Hobbes:

“Não existe qualquer forma perfeita de governo em que a decisão da sucessão não se encontre nas mãos do próprio soberano. Porque se esse direito pertencer a qualquer outro homem, […] ele pertence a um súdito, e pode ser tomado pelo soberano ao seu bel prazer, e por consequência o direito pertence a ele próprio.” (p. 119)

A análise desenvolvida pelo autor é enfática na defesa da visão de que, na medida em que o ser humano é um ser naturalmente mau, violento e covarde, apenas uma instância de maldade maior poderia viabilizar a sobrevivência coletiva (conforme exposto anteriormente). E esse, provavelmente, é o ponto de convergência entre o Justiceiro e Thomas Hobbes.

A consequência da violência sofrida por Frank Castle fez com que ele enxergasse uma sociedade, onde as relações são pautadas pela maldade e pela banalização da violência. Constatando que o Estado não atua de forma eficiente na tarefa de proteger os cidadãos, ele mesmo acaba sendo a personificação do Leviatã hobbesiano, o mal maior que irá punir e coibir as práticas criminosas.

HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Col. Os Pensadores. Trad.: João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Por: Professor Marcio Krauss

 

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