Medo Líquido segundo Zygmunt Bauman

Em entrevista publicada em janeiro de 2016 ao jornal espanhol ‘El País’, Zygmunt Bauman afirmou, ao ser questionado sobre o antagonismo entre segurança e liberdade que, “Esses são dois valores que são tremendamente difíceis de conciliar. Se você quer mais segurança, terá que abrir mão de certa quantidade de liberdade; se você quer mais liberdade, terá que abrir mão de segurança. (…) Há quarenta anos acreditamos que a liberdade havia triunfado e começamos uma orgia de consumismo. Tudo parecia possível via empréstimo de dinheiro: carros, casas… e você pagava depois. O chamado à realidade de 2008 foi amargo, quando os empréstimos secaram”. Historicamente percebemos que a chamada modernidade sólida fez uma opção pela segurança, ao criar padrões, apostar na durabilidade e confiança em tudo aquilo que era culturalmente construído.

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Segurança essa que dependia, até certo ponto, da imposição dos valores, do apego às tradições e do respeito às autoridades. Contudo, a segunda metade do século XX foi marcada por movimentos em prol da liberdade, com protagonismo dos jovens inclusive. Podemos citar como exemplos os hippies e os negros nos EUA, os movimentos de maio de 68 na França, o tropicalismo e o movimento estudantil no Brasil, entre outros.

O que muitos teóricos sociais, como Jean-François Lyotard e Jean Baudrillard, chamam de pós-modernidade, Zygmunt Bauman denomina modernidade líquida, para se referir ao momento histórico em questão, profundamente marcado pela contestação e quebra dos padrões até então vigentes. A “revolução” em curso atacava a segurança em nome da liberdade que, segundo Bauman, trouxe consigo uma sensação de “vazio” que nos fez recorrer ao consumismo como antídoto e meio para a conquista da felicidade. Entretanto, como mencionado anteriormente, o preço a ser pago foi ainda maior na medida em que desfrutar da liberdade tem como efeito colateral a perda da segurança. Psicologicamente estamos cada vez mais tomados pela incerteza, insegurança, instabilidade e medo.

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E no atual cenário o próprio medo é líquido. Ao ser questionado sobre o significado de tal medo numa outra entrevista, em julho de 2016, dessa vez para a rede de estatal TV Al Jazeera, Bauman explicou, “Significa o medo fluindo, não ficando no mesmo lugar, mas difuso. E o problema com o medo líquido é que, ao contrário do medo concreto e específico, que você conhece e com o qual está familiarizado, é que você não sabe de onde ele virá. (…) não há estruturas sólidas ao nosso redor nas quais possamos confiar e nas quais investir nossas esperanças e expectativas. Até mesmo os governos mais poderosos, frequentemente, não podem entregar o que prometem. Eles não têm poder para tanto”.

O autor também faz a distinção entre segurança e proteção. A primeira seria uma condição interior, sinônimo de estabilidade, enquanto a segunda é exterior e pode ser vista no número de câmeras instaladas em estabelecimento/condomínios/instituições, coletes à prova de balas, armas, carros blindados, senhas para impedir que qualquer um veja a tela de seu celular e etc. Nesse sentido, o medo passa a ser utilizado como ferramenta ideológica pela mídia, pelos políticos e pelo próprio mercado, da indústria bélica ao setor imobiliário. O medo sob o aspecto líquido não possui forma definida, pode estar em qualquer lugar e atacar em qualquer momento.

Profº Marcio Krauss

Por: O Martelo de Nietzsche

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