Paixão, Fantasia, Vida e Amor – O que é real?

dezembro 31, 2017 Off Por O Martelo de Nietzsche

O que Nietzsche pode nos ensinar sobre amor? Mesmo não tendo um amor correspondido, ele pode nos ensinar mais do que podemos supor. As especulações sobre o que ele pensava sobre desejo e paixão abundam: ele realmente teria contraído sífilis em um bordel? E quanto a Lou Salomé: ele a amava ou seus sentimentos em relação a ela não passavam de exageros? As respostas a essas perguntas variam.

O que pode ser encontrado nas cartas de Nietzsche é que ele teve poucas amizades com mulheres  ao longo de sua vida e que ele pensou em amor e casamento. Sua soledade muitas vezes é assumida como uma questão de preferência, contudo foram as dificuldades de seus anos nômades, que o obrigava a viajar para buscar o melhor clima para sua saúde debilitada.

Mesmo durante esses tempos, entre sofrimento físico e períodos intensos de escrita, ele seguiu a companhia de algumas mulheres instruídas. Além disso, Nietzsche cresceu em uma família de mulheres, voltou-se para as mulheres para amizade e testemunhou os seus amigos cortejando.

Nietzsche também não deixou de expressar suas preocupações filosóficas sobre as características idiossincráticas do amor em seus escritos. Ele usa seu estilo ácido e provocativo, com a intenção  de provocar em seus leitores uma sensação de desconforto sobre seus valores e pressupostos – em seus aforismos sobre o amor  ou sobre qualquer outro idealismo ocidental.

Paixão, Vida e Fantasia  – O que podemos considerar real em nossas vidas?

Dizer o que é real e o que não é, requer análise demasiadamente profunda na esfera individual. Infelizmente não é possível explicitar em apenas um texto. Contudo, vamos tentar apresentar um pouco da visão de Nietzsche em relação ao tema principal que envolve nossas vidas:

Amor e paixão. Ilusão ou necessidade? 

A paixão é alimentada pelo objeto ideal, a pessoa cria em sua mente um tipo venerado e persegue até suas últimas consequências. A paixão é um tipo particular de ilusão, pois é comum confundirmos desejo com realidade( sua realidade objetiva, concreta, tangível, observável). É impulsionada pela necessidade urgente de completude e costuma atribuir importância descomunal ao destinatário de tantos sentimentos. Resiste à realidade, gera perseguição, medo e loucura, nessa mesma zona mora a fantasia.

Uma das estratégias intelectuais mais importantes de Nietzsche é questionar as fronteiras entre as oposições tradicionais, colapsando nossas presunções sobre as qualidades essenciais das coisas que se opõem. A este respeito, o amor não é exceção.

Ao chamar nossa atenção para as qualidades básicas, vulgares e egoístas do amor romântico, isto é, da ideia de casal ideal,  Nietzsche pretende tirar o amor de seu status privilegiado e demonstrar que o que concebemos como opostos, como o egoísmo e a ganância, estão em muitas instâncias inextricavelmente ligadas à experiência do amor. Assim, podemos reconhecer o objetivo de Nietzsche de humanizar a vida por meio de uma provocativa afirmação da dissonância inerente a ideia de amor romântico.

“Ninguém ama ninguém, em última análise ama-se o desejo e não o desejado”

Nietzsche desvincula o conceito de amor de sua zona comum até então adorada, ou seja, da herança neoplatônica cristã e reitera suas afirmações éticas quanto ao valor da vida real, e lança duras críticas sobre o outro mundo inventado, a outra vida verdadeira essencialmente platônica, e a verdade do  nosso corpo é colocada em primeiro lugar. O que importa é essa vida, é esse momento, o agora é a eternidade. Para ele, essa vida deve ser compreendida a partir de uma análise não fantasiosa dos instintos naturais.

O amor faz parte do instinto animal do homem

Nietzsche prejudica qualquer idealismo de autoengano sobre o amor por meio da exposição de suas motivações menos atraentes. Na seção 14 de A Gaia Ciência, intitulada “As coisas que as pessoas chamam de amor“, Nietzsche desafia as concepções românticas com a afirmação de que o amor tal como se venera, “pode ​​ser a expressão mais ingênua do egoísmo“. Ele propõe que o amor esteja próximo da ganância e do Desejo de possuir, mascarado com o idealismo do belo e do sublime.

Para ele o amor é uma força instintiva relacionada com nossos movimentos biológicos e culturais, e, como tal, não pode ser considerado um bem moral. Além disso, a socialização dessas motivações geralmente resulta em preconceitos e até mesmo sofrimento psicológico, particularmente para as mulheres. No entanto, ele não faz nenhum esforço óbvio para convencer seus leitores que amam, em suas expressões egoístas, isto é,  a corrigirem esses sentimentos. O que ele faz é apresentar o erro,  o ato de querer corrigir ou não será uma atitude do leitor. “A última coisa que quero é melhorar a humanidade“. Ecce Homo.

Nietzsche também lança elogios a parte da criatividade da arte do amor e dos papéis que as pessoas adotam. Homens e mulheres desempenham estes papéis de forma diferente, ele gasta um tempo considerável enfatizando a distância dramática que a figura masculina possui na sociedade em relação a  feminina e como eles se amam numa relação de posse e interesse.

Em contraste com as declarações sem remorso de Nietzsche no aforismo 363 sobre a “oposição natural” entre os iguais, os aforismos 68-71 de A Gaia Ciência,  transmitem um sentimento de preocupação pelo dilema de que as mulheres se encontram expostas nas relações amorosas como resultado da educação e cultura, a mulher como objeto.

Nietzsche afirma que tanto os homens quanto as mulheres “precisam ser educados melhor” em relação à natureza do relacionamento entre homens e mulheres, pois é o homem que cria para si a imagem da mulher e a mulher se forma de acordo com esta imagem.Apesar de Nietzsche ter certeza de que algumas mulheres (Lou Salomé por exemplo) podem destruir essa imagem , ele continua a oferecer simpatia pelo fato de que as mulheres são, em muitos aspectos, sujeitas a papéis particulares no amor e são obrigadas a representar um personagem a fim de ganhar o amor de um homem

Os escritos de Nietzsche sobre o amor não surpreendentemente têm influenciado em muitas reflexões feministas sobre  gênero. Embora ele não esteja fazendo reivindicações moralizantes sobre como alguém deve amar, sua discussão sobre o difícil impacto que as relações românticas têm sobre as mulheres, bem como seu comentário sobre as ironias que os dois gêneros enfrentam, forçam seus leitores a examinarem os papéis que eles atribuem no amor. É difícil lê-lo para não questionar as próprias performances em relacionamentos românticos.

As reflexões de Nietzsche expressam uma voz provocativa e amigável pela qual ele elabora os delírios do leitor sobre o amor. Se ele faz você rir, franzir a testa, ou ambos, ou provoca qualquer outro sentimento em você sobre as verdades que te ensinaram, não tenha medo, mergulhe a fundo nessa fonte de conhecimentos,  sua visão sobre a vida irá mudar completamente, não somente sobre o amor, como, também, sobre vários assuntos.

“Nunca suponha igualdade de sentimentos! Nietzsche

Por: O Martelo de Nietzsche