Memórias do Subsolo: somos natimortos, não sabemos mais ser gente no sentido real da palavra

Memórias do Subsolo: somos natimortos, não sabemos mais ser gente no sentido real da palavra

Outubro 20, 2018 0 Por admin

Um dos livros mais incríveis de Dostoiévski. Ele foi escrito na cabeceira de morte de sua primeira mulher, numa situação de muita dificuldade e necessidade financeira, Memórias do Subsolo reúne com maestria vários temas que reaparecerão mais tarde em seus romances e nas obras de Freud.

Dostoiévski escreveu Memórias do Subsolo na segunda metade do século XIX e a obra foi publicada pela primeira vez em 1864. Para quem não está habituado com a literatura de Dostoiévski, saiba que é um livro denso, narrado em primeira pessoa, por um sujeito não nomeado (um dos poucos personagens de Dostoiévski que apresenta tal característica, pois normalmente ele costuma nomear seus personagens), de 40 anos de idade, cuja vida parece ser um eterno deslizar de significados sem sentido. Podemos chamar de o Homem do Subsolo:

“Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. […] Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. […] Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.” (p. 15)

Em linhas gerais, nós podemos dizer que aqui ressoa a voz do “homem do subsolo”, o personagem-narrador que, à força de paradoxos, investe ferozmente contra tudo e contra todos – contra a ciência e contra a superstição, contra o progresso e contra o atraso, contra a razão e a desrazão, mas investe, acima de tudo, contra o solo da própria consciência, criando uma narrativa ímpar, de altíssima voltagem poética, que se afirma e se nega a si mesma sucessivamente. Foi dessa obra que Freud pôde estabelecer o firme fundamento do conceito de “inconsciente”, no qual foi atribuído a ele, mas nós sabemos que Spinosa e Nietzsche já abordagem esse conceito em outra esfera de entendimento, por exemplo, quando Nietzsche fala: “eu não penso, algo pensa em mim.”

Especialistas afirmam que esse livro inspirou Nietzsche a escrever a “Genealogia da Moral”, suas teses sobre a “moral do escravo” e a “moral do senhor”, sobre o tipo saudável que vive de acordo com seus instintos, sem se preocupar com as consequências de seus atos; e, o tipo ‘doente”, que vive a remoer suas mesquinharias, sem jamais esquecer ou perdoar. Também é dito que serviu de modelo para Freud em sua ideia sobre o inconsciente.

Niilismo e realismo

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem.” (p. 17)

“… tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta. […] Finalmente, sou culpado porque, mesmo que houvesse em mim generosidade, eu teria com isso apenas mais sofrimento devido à consciência de toda a sua inutilidade.” (p. 21)

“… talvez o homem normal deva mesmo ser estúpido.” (p. 22)

O leitor é levado acreditar em uma alteração do juízo consciente da Realidade, na representação da ideia do niilismo presente em toda a obra. Isso é evidenciado na constatação final do Homem do Subsolo de que  na verdade nós somos natimortos, não sabemos mais ser gente no sentido real da palavra, o futuro é obscuro, especialmente pela grande probabilidade do fato observável e concreto do desejo e da razão estarem em constantes conflitos, isto é, sobrepujar qualquer manifestação do sentimento de ser humano.

Dostoiévski não está se referindo a um homem, mas a todos os homens, em maior ou menor grau, em seu subsolo que é o inconsciente. Vejam o que o próprio escritor afirma : “Orgulho-me de ter sido o primeiro a descrever um autêntico representante da maioria russa, o primeiro que mostrou o aspecto feio e trágico de sua natureza. (…) Sou o único que representou a tragédia do subsolo, uma tragédia que provém do sofrimento, do reconhecimento de que existe algo melhor que não pode ser alcançado…” (Kietsaa, 1987, p.174).

Dostoiévski tinha clara noção de que estava falando de sua psicologia nata que posteriormente Freud chamou de unbewusst, isto é inconsciente.

Eu poderia dizer que em suma, Dostoiévski toca no âmago da humanidade com essa obra magnifica. Todos nós somos seres profundamente contraditórios, que preferimos o que nos é prejudicial, o que nos é danoso, seja por orgulho, por teimosia, ou por vaidade, a ter que reconhecer que erramos.

Preferimos o contrário que nos mandam fazer, apenas pela satisfação de mostrar que podemos fazer diferente, ainda que isso nos acarrete prejuízo. A razão, que tantos dizem que nos comanda, ocupa minúscula parte de nossa vontade. A razão não passa de serva de nossos caprichos e idiossincrasias, incapaz de governar nossas ações.

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imagem: livre reprodução da internet.

Por: O Martelo de Nietzsche