Nietzsche no Paraguai, Christophe e Nathalie Prince.

junho 3, 2019 Off Por O Martelo de Nietzsche

Sua irmã tinha acabado de se mudar para o Paraguai quando começou a implorar pela ajuda de Nietzsche em seu “novo projeto’. Elisabeth Nietzsche, esposa Förster (1846-1935), se aventurou em novas terras com seu marido, Bernhard, e uma dúzia de famílias da Saxônia obcecados com a ideia da pureza racial e ódio aos judeus que estava crescendo com muita força na Europa, especialmente na Alemanha. A ideia era fundar uma colônia de raça ariana. 

É claro que Nietzsche não concordava com tamanha estupidez, mesmo que sua filosofia tenha sido usada posteriormente por Hitler e seus adeptos, na tentativa de justificar por meio de sua filosofia, o delírio da purificação da raça humana.

Nietzsche no Paraguai

Tudo indica que Elisabeth Förster-Nietzsche, cujas cartas na íntegra de sua ida ao Paraguai, foram perdidas, descreveu um éden para seu irmão, com intenção de convence-lo em seu plano maquiavélico. 

No princípio, sem ter conhecimento do que sua irmã estava em mente, ele respondeu: “Estou encantado com tudo o que você me conta sobre o seu principadozinho do Paraguai, suas suntuosas florestas altas, o comércio de madeira que você fez com a Argentina, encantado em ver que sua casa parece uma espécie de paraíso localizado na sociedade do Paraguai. É por isso que você nunca tem menos de catorze pessoas à mesa … “

Nietzsche repudiava o antissemitismo, mais tarde negou veementemente qualquer tipo de apoio financeiro na construção da Nueva Germania. Sua irmã tentou convencê-lo por todos os meios, sugerindo, por exemplo, que uma área da Nueva Germania fosse denominada “Bosque de Friedrich”. O filósofo respondeu com sarcasmo: era melhor o nome “Lamaland” – “Lama” era o apelido que Nietzsche usava para Elisabeth.

Não se sabe com todos os detalhes como foi a viagem de Nietzsche até o Paraguai e quanto tempo exato ele permaneceu por lá antes de saber o plano de sua irmã. O que que se tem, são fotos e algumas correspondência de Nietzsche e sua irmã. Inclusive, uma dessas correspondências, Nietzsche repudia sua irmã completamente. Não sabendo ele que posteriormente ele seria usado como “objeto humano” de decoração turística, pela própria irmã. Como podemos ver a seguir.

A colônia “Nueva Germania”

Ela foi fundada precisamente em 1887 como primeiro assentamento privado do Paraguai, para o qual o governo de Assunção concedera mais de 20 mil hectares de terra, a 90 quilômetros a sudeste da cidade de Concepción (leste), onde somente alemães eram aceitos.

Os primeiros anos foram penosos para os “novos germânicos”: além de atormentados por pragas e parasitas, suas colheitas eram totalmente miseráveis.

O racista Förster doutrinava os colonos segundo sua brutal visão de mundo. Já durante a viagem de navio até o chamado Novo Mundo, fazia palestras sobre temas como a “Purificação e renascimento da raça humana” ou a “Salvação da cultura da humanidade”.

Uma cláusula no contrato entre o governo do Paraguai e Förster determinava que, se dentro de dois anos não houvesse 140 famílias alemãs vivendo na colônia, a concessão das terras seria rescindida. Isso obrigava o ideólogo a fazer forte propaganda na Alemanha, tanto para conquistar novos colonos como para angariar doações para seu projeto.

A ideia racista foi um verdadeiro fracasso.

A recusa de Nietzsche de investir no projeto mostrou-se sábia também do ponto de vista econômico, pois após dois anos nada foi adiante, e aos poucos o fracasso tornava-se iminente. Enquanto a família iniciadora residia na luxuosa “Corte de Förster”, os demais colonos viviam em condições bem modestas. Elisabeth chegava a dizer que Nueva Germania era seu principado. Seu marido, por sua vez, nos primeiros meses antes do suicídio, desenvolvera uma insalubre paixão pelo álcool.

O fim de uma ideia absurda

Quando, em 1889, foi divulgado um relatório sobre as verdadeiras condições de vida na colônia, Förster cometeu suicídio. Sua criação, contudo, seguiu existindo, mesmo depois que Elizabeth retornou para a Alemanha para cuidar de seu irmão que estava terrivelmente doente.

No entanto, a Nueva Germania ainda existe.

Até hoje, os descendentes daqueles colonos alemães que o casal quis instalar na selva vivem em Nueva Germania. Alguns casaram-se com habitantes do local, num testemunho inegável de que a terrível propaganda racista de Förster não teve sucesso na região.

Fonte: Le Monde

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