O cristão de todos os dias é uma figura lamentável

agosto 14, 2019 Off Por O Martelo de Nietzsche

A afirmação do título desta matéria é de Nietzsche, em O Anticristo. E qual a razão de colocar a foto de Bolsonaro na capa? Só para chamar atenção e causar polêmica?

Para essas duas primeiras indagações a resposta será a seguinte: a razão da foto de Bolsonaro na capa é para chamar atenção sim, mas não é para causar polêmica, embora esse assunto seja polêmico só pela afirmação de Nietzsche. A principal ideia aqui é traçar um paralelo entre Bolsonaro e o Cristianismo. O que esses dois signos linguísticos tem em comum?

Têm muita coisa em comum. Primeira verdade irrefutável: Bolsonaro se diz teísta, conservador e que preserva os valores da família tradicional brasileira, e que tem Deus no comando de suas ações. Sim, são afirmações genéricas. Mas foram com afirmações superficiais, e claro, por um conjunto de muitos outros fatores que ele venceu as eleições, não é sobre isso que eu quero tratar aqui com vocês.

Ao discursar sobre valores tradicionais corriqueiros no meio social, ele atrai para si uma parcela bem gorda da sociedade que não aceita ideias mais libertárias e mais atuais de nosso tempo. Talvez você pergunte: quem são essas pessoas que não aceitam ideias mais libertárias? Sim, são eles, os cristãos, ou pelo menos os que se dizem tementes ao Todo Poderoso.

Porém, existe aí uma problemática muito grande: ser cristão nos dias atuais é muito difícil de se caracterizar com informações genéricas, pois existem DIVERSAS correntes do cristianismo moderno que não estão em comum acordo em suas interpretações, isto é, daquilo que eles chamam de “Sagradas Escrituras”. Tem o cristão conservador primitivo ortodoxo, o puritano, o liberal, o neoliberal, o cristão-agnóstico, o cristão-ateu (sim, cristão ateu, aqueles que professam na igreja acreditar em Deus, mas a prática é totalmente diferente, talvez seja o tipo mais comum no Brasil), tem cristão, cristianismo e evangelho para todos os gostos.

Para o seu descontentamento, caso você se enquadre em algum tipo de cristão que eu tenha mencionado, ou qualquer outro tipo de cristão. A crítica de Nietzsche contempla todos os tipos de cristãos possíveis. Ninguém escapa. Se você acredita na vida por vir, além, novo mundo, vida eterna, ou qualquer outro tipo de concepção que super valoriza outra vida, sim, você se encaixa naquele tipo de crítica que Nietzsche vai chamar de niilismo.

Para Nietzsche, qualquer sistema de moral, ética, ideal, que menospreza ou que coloca a vida presente em um grau de inferioridade, está passível a crítica, é um tipo de niilismo.

O que Bolsonaro fez, seja por orientação ou por mero sensacionalismo barato foi dizer o que as pessoas (em sua maioria) desejam ouvir.

Ele não fez com que as pessoas acreditassem nele, ele apenas disse o que as pessoas queriam ouvir: “deus acima de tudo”, “família é entre homem e mulher” “quero ter a liberdade de ser ofensivo, sem precisar ser politicamente correto”, “quero poder expressar meu ódio ao que é diferente de mim”, “quero dizer também: vamos fuzilar a petralhada”, quero me libertar do aparelhamento da esquerda”, “quero ser livre da opressão e da ditadura gayzista esquerdopata ” quero que o PT seja eliminado”, quero isso, quero aquilo…

E por incrível que pareça, esse tipo de desejo não é de pessoas ímpias, ou pessoas que não frequentam igrejas. A maioria dos evangélicos, pelo menos os que estão na parte gorda da representatividade do evangelho no Brasil, adotou e continua dotando este discurso.

A expressão “Deus acima de tudo” está no imaginário social, independente do partido, sim, há uma falsa concepção não só no Brasil, como no mundo inteiro, que “DEUS criou todas as coisas e portanto, ele está cima de tudo, e nós humanos devemos a sua submissão total, pois afinal, nós somos criaturas”.

O problema não está em acreditar nesta afirmação, mas fazer com que todos aqueles que não acreditam nessa ideia sejam demonizados ou menosprezados.

“A Minoria tem que se curvar a maioria.”

A frase é de Bolsonaro, mas a ideia é antiga e está no imaginário de um povo ignorante e sem instrução da realidade dos fatos da sociedade em que vive. Os fracos devem ser submissos aos fortes, no caso, na figura representativa de Bolsonaro, os grandes bancos, a elite dominante e o povo que aceita o discurso dele de dominação (o que eu chamo de opressão) devem prevalecer, isto é, seu discurso (e seu pacote de ideias) deve ser aceito sem nenhum questionamento.

Quem discorda é comunista, petralha, apoiador de ladrão e, portanto, não deve-se ter atenção.

O que fazer diante de tudo isso?

Sinceridade? Eu não vejo horizontes, pelo menos para os próximos anos.

Você leu esse texto até aqui? Muito obrigado pela atenção. Continuarei sobre esse assunto em uma próxima matéria.

Wanderson Dutch