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A Resiliência, segundo Nietzsche.

Resiliência é um termo recente, que fora apropriado da física já que, na verdade, resiliência é uma propriedade dos corpos que conseguem voltar a sua forma original após sofrer uma deformação elástica. Analogamente, hoje, o mundo corporativo utiliza esta palavra em um contexto humanizado, em que o indivíduo resiliente é aquele capaz de suportar e combater as adversidades e desafios. É o que suporta, não deformações elásticas, mas provações em sua vida, sem desistir ou enfraquecer-ser.

Mas essa apropriação apenas se tornou possível, talvez até mesmo necessária, porque o termo “saúde” nos dias de hoje, principalmente para os leigos da área da saúde, significa ausência de impedimentos ao corpo e à mente; ausência de condições, limites, infecções, deficiências, vírus, ferimentos, malformações, …. Enquanto para Nietzsche, o termo “resiliência” jamais seria necessário, pois, para ele, saúde é a capacidade de combater todas essas coisas, de organizar o corpo junto de suas limitações para que ele funcione bem.

 

Saúde e Doença são opostos?

Para o nosso filósofo, saúde ou doença não constituem uma oposição. O diagnóstico de “saudável” ou de “doente” é apenas o resultado da batalha entre o corpo e o que o adoece. Saúde, em Nietzsche, é uma harmonia entre tudo o que há no corpo, inclusive o que poderia ser força determinante para doença em outros corpos.

 

“o que alguém precisaria para a sua saúde seria para o outro uma causa da doença” (NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano, I, 5, 286).

 

A doença é uma desorganização, um erro de leitura do corpo sobre ele próprio, uma anarquia, um esgotamento; uma incapacidade do corpo de combater as doenças e organizar-se.

Há saúde apenas quando há doenças superadas, uma boa resposta, uma superação do corpo. O corpo livre de toda a infecção, para Nietzsche, não é saudável, é apenas um corpo protegido tanto da saúde quanto da doença. E isto não significa que não deveríamos evitar higiene como proteção, afinal, não temos garantia que teremos saúde para superar qualquer doença, mas significa que devemos buscar condições físicas e climáticas que nos favoreçam para que tenhamos maior capacidade de sermos combativos contra a doença.

Isso vale não somente para busca por maior uma saúde do corpo, mas também da mente. Pois também pode-se estar doente da tua própria moral, da companhia do teu próprio rebanho, da tua própria maneira de viver e pensar.

 

A Grande Saúde.

Quem o homem moderno chama de “resiliente”, para Nietzsche, é o saudável. Talvez, ainda, quem a modernidade chama de Antifrágil – capacidade de sair ainda mais forte após uma provação- , Nietzsche considerava um portador de uma “Grande Saúde”.

A grande saúde é a capacidade da mente e do corpo de responder com muita força há ameaça da doença:

 

“A doença é um poderoso estimulante. Mas é preciso ser suficientemente saudável para esse estimulante”

(NIETZSCHE, F. Fragmento póstumo de 1888).

 

Não há regra, receita ou fórmula generalista (que sirva para todos) para conquistar qualquer nível de saúde. Porém, Nietzsche, que teve uma saúde muito frágil durante boa parte da vida, percebeu uma grande sabedoria pertencente ao corpo. Nietzsche observou seu próprio corpo, seus desejos, seus afetos e os respeitou. Não foi necessário, e não é para ninguém, saber tudo sobre si mesmo. Mas é extremamente necessário, além de estar em contínuo desenvolvimento, permitir-se o luxo de tornar a si mesmo!

E, talvez, exatamente por este grande desenvolvimento contínuo do pensamento que Nietzsche propôs e a incrível habilidade de ouvir e respeitar o corpo, que tenha sido possível se tornar, segundo Freud, o maior conhecedor de si.

 

Nietzsche tinha “conhecimento de si mais penetrante do que qualquer homem que já viveu ou que possa ter vivido” – FREUD, S.

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