Não precisa de grelha: o inferno são os outros.

A famosa frase de Sartre “o inferno são os outros” aparece em sua obra Huis clos ( Entre quatro paredes). Em que Garcin, Inês e Estelle morrem e, em um cômodo, cada um se conscientiza do que são através do julgamento dos outros dois. Mas é quando Garcin se descobre um frouxo para Inês e Estelle, que constata:

“O bronze aí está, eu o contemplo e compreendo que estou no inferno. Digo a vocês que estava tudo previsto. Eles haviam previsto que eu iria parar diante desta lareira, tocando esse bronze com as mãos, tendo todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem… (Volta-se bruscamente) Ah! Vocês são apenas duas? Achei que fossem muito mais numerosas. (Ri) Então, é isto o inferno. Jamais imaginara… Vocês se lembram: o enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Não precisa de grelha: o inferno são os outros”

(Huis clos, página 92, tradução livre).

O quanto apontamentos e julgamentos alheios podem pesar sobre nós, ao ponto de preferirmos sumir, nos ferir ou morrer do que passar por certas situações, é um inferno.

Devemos passar pelo inferno ainda em vida.

Acontece que, até mesmo para Sartre, viver neste inferno ainda em vida é indispensável. Não pensando na dor que a solidão poderia nos causar, mas porque “O outro é mediador indispensável entre mim e mim mesmo” (Sartre, O ser e o nada, p.290). Ou seja, é na comparação com o outro, que, através das diferenças, percebemos quem somos. Quando criança começamos a perceber quem somos, talvez, no nosso “não” em oposição à ordem alheia… O “não” é a primeira chance que temos de afirmarmos nossa individualidade.

Mas também, é necessário ressaltar que é muito mais fácil percebemos e valorizarmos nossas qualidades em um ambiente que apenas nós as temos. Porque, se todos tiverem-nas, perceberemos que não temos qualidade alguma… Me parece muito mais saudável, talvez, fazer parte de um grupo cheio de diversidade aonde cada um tenha um detalhe de destaque. Em um ambiente assim há aprendizado com o próximo, ao mesmo tempo que há aumento de autoestima através da percepção de que você possui qualidades incríveis e únicas, ao comparar-se.

O “outro-eu” não é verdadeiro.

Note também, que a interpretação de quem somos, nossa autoavaliação, tem como instrumento quem o outro é para nós. Nossa autopercepção extremamente positiva, ou extremamente negativa , não deveriam ser levadas à sério ao ponto de influenciarem grande alteração do nosso humor. Primeiramente porque por muitas vezes nos comparamos com o “outro-objeto” – o outro como objeto observado-, isso acontece por causa da nossa incapacidade de avaliar um terceiro como “ser” em sua totalidade, apenas como “objeto”; peça de determinadas situações. Avaliar o outro como “ser” (não como “outro-objeto”) demanda uma observação muito ampla, profunda e superior. Em segundo lugar, que bastaria trocar o “outro-objeto” de nossa comparação, ou mudar a situação em que avaliamos o mesmo “outro-objeto”, para alterar o julgamento sobre nós mesmos; sobre a nossa estima.

Qualquer um que seja julgado como “ser-objeto”, será julgado injustamente. Afinal objetos possuem essência bem definida, que precedem a sua existência. Um corta-papel existe, pois foi criado para cortar papel. Nós, por outro lado, apenas nascemos, somos inúteis. São as outras coisas que possuem uma utilidade para nós. É após existirmos, que pensamos, e, então, podemos escolher uma utilidade (um propósito) para nós mesmos. O julgamento do “ser-objeto” nos obriga, por definição, em cair na pegadinha do determinismo e resignação.

A saída do inferno.

Sair do inferno exige a capacidade de entender que qualquer julgamento seu ( e do outro) é sempre – a menos que você seja psicólogo do outro – objetificada. Isso vale para julgamentos até mesmo às pessoas mais próximas! Isso vale até mesmo quando julgamos nós mesmos muitas vezes!

A plena capacidade de empatia e autocompaixão talvez seja a fuga perfeita desse inferno.

Você consegue relativizar a pressão normativa da sociedade, ou o que possivelmente o olhar negativo dos outros quer dizer? Ou você se sente frágil e vulnerável ao julgamento alheio?

Lembre-se que as rejeições e julgamentos nunca serão ao teu ser, mas ao objeto redutivo do teu ser (a única coisa que conseguem enxergar).

 

“Você é livre, escolha, ou seja, invente. Nenhuma regra de uma moral genérica pode indicar o que devemos fazer”

(Sartre, O existencialismo é um humanismo, p. 38).

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