O Antigospel

Lembro de frequentar a igreja em minha adolescência. Com 17 anos havia uma música que me impactava profundamente, em boa parte pela incrível voz de seu cantor, mas principalmente pelo refrão: “Eu nada sou sem o teu amor”.

Uau… que pecado!

Primeiramente o leitor pode pensar que “é uma linda declaração”, ou que “horrível! Atribuir toda a possibilidade de ser ‘ser’ ao sentimento de outro”; ou até mesmo “como um cristão vai conseguir ser feliz com prendimento ao sentimento de culpa de nada ser; de ser fraco de espírito; um nada?!”. Até porque a felicidade está, segundo Aristóteles, no pleno desabrochar do ser… Aquele que se reduz à nada, nem ‘ser’ se sentirá para manifestar sua própria vontade – causa maior da felicidade.

“Eu nada sou sem o teu amor” não é amor. É apenas o assassinato da identidade e do “ser” dentro do humano, uma declaração de ódio a si mesmo e à humanidade (pois partem do princípio que os outros também nada são sem o amor de deus); uma entrega de si à possessão de outro.

Toda essa expectativa de um ideal, todo esse amor depositado n’ele, numa vida perfeita após a vida, em uma mulher virgem e obediente, na expectativa de um homem santo e perfeito, deixa sobrar que sentimento pelo real? O real é tão sem graça perto do ideal, como poderei amar o real depois de idealizar? Como poderei ter o mínimo de amor próprio quando o sentido do meu SER está no sentimento ou na existência de outro? Como poderei me amar se eu me reduzo à NADA? Só restará ódio à quem eu sou; culpa por ser quem sou; e o único fornecedor da causa da minha doença será quem me vendeu a droga que me adoece, o pastor. Seria menos eficiente cantar “Eu me odeio!”.

“Porque fazemos um além se este não fosse um meio de sujar aqui em baixo?” (NIETZSCHE, O crepúsculo dos ídolos. “Incursões de um extemporâneo”, 34).

“[…] só o homem ideal ofende o gosto do filósofo” (NIETZSCHE, O crepúsculo dos ídolos. “Incursões de um extemporâneo”, 32).

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