O dia em que o Brasil diminuiu 100 mil vezes

Caro leitor e leitora, por meio desse post lhe convido a refletir sobre a marca de 100 mil mortes por coronavírus no Brasil. No dia 08/08 o Brasil se tornou 100 mil vezes menor. Foram 100 mil almas que nos deixaram. Elas se foram deixando famílias, amigos, namoradas, filhos, irmãos etc. A triste realidade que enfrentamos. 

A morte ao longo da história teve um tratamento diversificado. As filosofias presentes em tempos diferentes buscavam tratá-la de forma mais positivo – com Montaigne, por exemplo – ou até de modo mais negativo – praticamente todo o resto. O fenômeno da morte em si já nos abre questionamentos ricos, os quais podem nos levar a conclusões frutíferas – como as de Hans Jonas, apontando que o medo da morte pode ter sido um forte contribuinte para a filosofia. 

Entretanto, convido você que está lendo para abordar o aspecto ético da morte, não o metafísico, ou seja, olhar se as nossas ações poderiam evitar esse número de pessoas que se foram, ou se é algo normal e impossível de ter evitado. Um primeiro ponto que deve ser salientado é que o Brasil tem mais ou menos o mesmo número de habitantes que o restante da América Latina, e apresenta pouco menos que o dobro em número de mortos. 

É custoso atestar que no ano em que enfrentamos uma das piores crises sanitárias da história, a qual já matou tantos brasileiros e brasileiras, termos na liderança do país alguém ‘cuja especialidade é matar’. A personificação da Necropolítica, a qual, segundo Achille Mbembe, é a capacidade do Estado de decidir quem vive e quem morre. 

O encontro de um Estado naturalmente Necropolítico, com um líder que personifica tais características, naturalmente geraria más escolhas políticas, as quais levariam a milhares de mortos. É fato, que não só escolhas erradas foram tomadas – veja o ministro, um militar, sem experiência na saúde – e tiveram consequências à população brasileira. Porém, não devemos esquecer a desigualdade social presente em nosso país, que faz a etinografia dos mortos ter cor e classe (ver: https://urpe.org/2020/04/03/the-need-for-class-race-and-gender-sensitive-policies-to-fight-the-covid-19-crisis/ e https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/13/interna-brasil,844115/coronavirus-e-mais-letal-para-pacientes-pretos-e-pardos.shtml

Nessa crise que estamos passando, a Necropolítica se intensifica ainda mais, apresentando suas garras em cada decisão errada do governo – ou até as certas, pelo fato das características do Estado há uma ambiguidade ética nas decisões. Como aponta Abdias do Nascimento em o genocídio negro brasileiro, o povo periférico – que em sua maioria é negro, e portanto, é mais afetado – sempre foi mais atingido do que outras partes da população.

Na obra ele aponta os casos de homicídios, em sua maioria do povo negro. Acrescentamos a sua análise os números da covid, com os mesmos resultados. A Necropolítica, alimentada por um racismo institucionalizado desenvolve uma banalização da morte do povo preto e pobre. São corpos inúteis – no sentido Foucaultiano – e corpos matáveis – como apontaria Mbembe. Como diria o personagem racista do episódio com o entregador de aplicativo dessa semana “você nunca vai ter isso aqui […] tem inveja da minha pele”. O poder sobre a vida é o que exige mais responsabilidade, pois o seu objeto é o que de maior temos no mundo: a vida. 

A ação de cada governante e líder que vai desembocar na vida ou na morte dos cidadãos deve ser extremamente responsável e cuidadosa. Fatos que não temos atualmente. Na verdade, temos o oposto: ações irresponsáveis e longe de serem cuidadosas. Será que tais atitudes influenciaram nas mortes ou não? É evidente que sim. Como apontado, qualquer decisão do estado é uma escolha entre a vida e a morte: em alguns casos é inevitável pela estrutura intrínseca do poder, porém nesse caso ações mais responsáveis e cuidados salvariam milhares de vidas. 

Essa banalização da morte é presente nos tempos que estamos passando é, não só consequência da situação em si e do racismo estrutural presente na sociedade, mas da desigualdade latente e profunda presente na sociedade brasileira. Já sabemos os maiores afetados. Se a maioria das mortes tivesse ocorrido no alphaville – para citar outro episódio que representa esse cancro racial e classista presente no Brasil -, o luto da população, do governo e da classe média seria maior. Há corpos que valem mais, pois produzem e compram mais. Há aqueles que estão na margem, nem movimentam tanto a economia, nem produzem tanto, não movimentam o capital, e portanto não são tão importantes ao sistema (ainda citando o diagnóstico de Abdias e Mbembe, veja também: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-morte-banalizada-8470/ )

Conclusão: Além do luto natural que uma morte nos deixa – em especial hoje, quando alcançamos essa marca – precisamos ter um pesar mais profundo que olhe as consequências de tudo isso que foi citado ao longo do texto. A pandemia traz à tona relações enraizadas na sociedade, as quais são muito comuns e muito presentes. Não só o racismo e a Necropolítica, mas a desigualdade social tem suas consequências intensificadas, agora se tornando em vidas. Porém, a desigualdade vem matando a população negra e periférica brasileira de outras formas: homicídios, tráfico de drogas, confrontos policiais, falta de acesso a saneamento básico, falta de acesso à saúde, etc (vide Abdias do Nascimento). Que a situação de hoje, com todas essa histórias interrompidas, nos faça agir em prol da mudança, em prol da luta contra a desigualdade social e demais problemas citados. Reconhecer é o primeiro passo, mas como estamos no campo ético, das ações, agir é essencial. E lembre-se não agir também é uma escolha. Só que nesse caso não estamos escolhendo entre qual filme vamos assistir, mas sobre quem deve morrer e quem deve viver. Que possamos escolher pela vida.

 

Espero que tenha feito vocês pensarem um pouco. Podem discordar do que falei, coloquem nos comentários. E não deixem de ler as matérias que linkei. 

Forte abraço, Miguel Bugalski. 

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