O que é Perder? Só quem já perdeu sabe…

Caro leitor, te convido, por meio desse pequeno texto, a pensar sobre o processo de perda. Ou como Elisabeth Bishop diz: ‘a arte de perder’. ‘Tantas coisas tem em si o acidente de perdê-las, que perder não é nenhum mistério”. Vamos tentar pensar um pouco sobre o que é perder?

Naturalmente, as formas de perder não são iguais. Elas tem níveis de importância e  complexidade. Perder uma chave é diferente de perder uma casa, por exemplo. Perder objetos, em geral, não representa nenhum fato incomum: os perdemos toda hora. Já perder uma casa… aí torna-se algo extremamente único, talvez uma vez na vida. Entretanto, observe que há um gênero do Perder que não é insignificante como a chave, é como a casa, algo único e grande – até maior que a residência – e mesmo assim é tão comum na vida como perder uma chave. Vou deixar essa questão para refletirem, no final digo o que é.

Vamos mais a fundo na nossa análise sobre o ato de Perder. Outro aspecto importante, além dessa divisão de grau, o qual representa a importância daquilo que perdemos, existe a divisão de gênero. Gênero no sentido Aristotélico, de tipos e categorias de seres. Já falamos de duas, os objetos e as propriedades maiores – como a casa. Mas, existem outros gêneros que podem ser perdidos, como a dignidade por exemplo. A dignidade não é uma propriedade privada no sentido da casa, que você vai comprando por aí nas lojas. Nessa caso, precisamos entender a dignidade no sentido ontológico e no sentido moral; no primeiro diz respeito a composição de cada pessoa – A dignidade da pessoa humana presente no direito é do que estamos falando – já a segunda se relaciona a um respeito que tem na sociedade. Aquele que é Digno, no sentido moral, é a pessoa ilibada cuja tem merecimento por meio de suas atitudes. A dignidade ontológica não tem como perder, já a moral pode ser perdida rapidamente – principalmente nos tempos das redes sociais. Nesse sentido, cada gênero representa uma particularidade no ato de perder. Alguns são impossíveis de perder, como vimos no caso da dignidade.

Além da diferenciação de grau presente no ato de perder e a do gênero, como vimos anteriormente, temos um sentimento presente nesse objeto. O mais importante, o qual pode deixar o grau e o gênero mais importante ou insignificante. Uma chave pode representar uma perda pequena a uma pessoa, mas se essa chave guardar algo importante que gera sentimentos em outra pessoa, é claro que a perda da chave será mais importante. Assim como, se a dignidade moral não for importante para outra, ela não se importará em perdê-la.

O sentimento pro trás do ato de perder é complexo, e pode ser manifestado de diversas formas. Porém não é nosso foco aqui. O que precisamos saber é que o valor que colocamos em cada objeto depende do quanto colocamos de importância em certo gênero e grau. Veja por exemplo, há muitas pessoas – como eu – as quais colocam extrema importância nos Livros, e outras não. Quem nunca teve tantos livros em casa, talvez não de tanta importância. Assim, quando um livro é perdido, o impacto será diferente em cada um. Da mesma forma que o grau, pode ser um livro da área que eu estudo ou de uma área que não tenho interesse. Naturalmente que darei mais importância ao livro da minha área. Porém, como vimos, o sentimento pode intensificar ou acabar com a relação que temos com o objeto. Veja o exemplo do livro, eu sou uma pessoa que adora livros – já são importantes em si -, e tenho livros da minha área de estudo – filosofia, mais importantes ainda -, caso eu tenha um livro de filosofia raro, uma primeira edição, o qual demorei para conseguir, a minha relação com tal objeto é imensa. O ato de perdê-lo seria quase como uma parte de mim. O sentimento intensificou o ato de perda. Isso pode acontecer em qualquer momento, com qualquer pessoa. Até mesmo com quem não gosta de livros, se algum livro foi do seu Avó, ele vai ter um sentimento por trás e será importante.

Já fizemos algumas considerações sobre o ato de perder – vale ressaltar que podemos dizer mais sobre, se gostarem da reflexão deixem nos comentários que preparamos mais. Agora ao que interessa: o que é o ato de perder que é extremamente grande em grau, é um gênero único e representa o maior sentimento, e mesmo assim tem uma regulação própria? Ou seja, age diferentemente de tudo que falamos. É claro, para alguns já está óbvio: o amor.

Como diria Elizabeth Bishop:

“Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”

A arte de perder não é nenhum mistério, mas é extremamente sério. Principalmente se for o amor, e principalmente se for o erótico – do eros platônico. Sobre a arte de perder fizemos nossas contribuições iniciais, o que acharam? Se gostarem podemos continuar o texto falando da arte de perder um amor, pois todos já perdemos e precisamos dessa terapia.

Forte abraço caros leitores

Miguel Bugalski

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