Sempre fomos seres virtuais.

Reproduzir que “sempre fomos” é uma grande novidade para muitos, mas também, muito se é falado sobre o que somos de uma forma individual; do desenvolvimento do indivíduo. O que pretendo falar nesse texto é uma constatação do desenvolvimento humano como espécie.

O surgimento do Homem Virtual.

Embora, no dia a dia, seja muito comum as pessoas pensarem como se o mundo tivesse começado há 2020 anos atrás; só na revolução francesa, ou mesmo que a primeira guerra mundial aconteceu há muito tempo, esses 3 momentos são muito mais próximos do “hoje” do que o surgimento da consciência como uma instância virtual. Para ser preciso e coerente com a história, o homem virtual surge no instante que passamos a poder chamar nossos ancestrais de Homo sapiens sapiens.

A espécie Homo sapiens – pense, aqui, como a derivação do latim para “homem que sabe”- surgiu há 300 mil anos, mas foi há 100 mil anos que apareceram os descendentes que foram nossos precursores. Não aquele que foi apenas o “homem que sabe”, mas o “homem que sabe que sabe” (Homo sapiens sapiens); aquele que não só sabe que vive, mas que sabe que é consciente da vida; aquele que está no ambiente físico, mas tem uma consciência virtual que o permite se ver de fora.

Acumulo de dados: nada mais humano.

Possuímos um armazenador de dados natural, o cérebro. Armazenamos nele lembranças, aprendizados, experiências, ideias, alegrias, sofrimentos… E nada define melhor nossa natureza virtual do que a memória – essa necessidade de acumular dados.

Até que chegou o ponto histórico da criação do alfabeto, que trouxe o que é virtual para o papel. A criação do alfabeto serviu como uma revolução da memória (armazenamento de dados), que levou a nossa virtualidade para além do nosso corpo, da nossa voz; para o papel. Ainda que pouco acessível, foi revolucionário e essencial para, alguns milhares de anos depois, haver a possibilidade de compartilhamento em larga escala com a criação da impressão de livros.

O maior alcance que a impressão proporcionou foi um marco no fim da Idade Média, e, mesmo assim, não se compara com a escala que temos hoje nos canais digitais. Hoje, nossa capacidade de armazenar e compartilhar é infinitamente maior.

Essa é a nossa natureza.

Quando o homem ocidental moderno pensa na sua natureza, costuma pensar na imagem que tem de seu ancestral das cavernas em pleno contato com a natureza. Essa natureza humana é a que utilizamos no nosso senso comum.

Ao passo que, na Grécia antiga, se via a natureza humana não como o primeiro perfil de homem, mas como o resultado do homem: a mais alta civilização (na perspectiva grega).

Pensando a nossa natureza como o resultado do desabrochar (uma finalidade) do humano, ou seja, o que nós naturalmente construímos em nossa passagem pela terra, fica claro que o que insistimos em construir, sentir, assumir, fazer, façam parte de quem somos.

As revoluções da memória, do armazenamento de dados, nessa perspectiva são efeitos da virtualidade da nossa consciência (a causa). No desabrochar da nossa espécie vamos do alfabeto ao compartilhamento em nuvem – porque nossa natureza é, também, virtual.

Fazendo jus ao nome da página; aplicando Nietzsche à ideia de que somos seres virtuais – que a virtualidade da nossa consciência tem parte na nossa natureza -, a ideia ainda faz bastante sentido. Nietzsche supõe que não podemos separar o autor de seu ato. Os comportamentos, as ações, os feitos, as criações (os efeitos) fazem parte do seu autor (as causas). Não existe relâmpago sem trovão ou trovão sem relâmpago. Não se separa autor de ato, eles são apenas um fenômeno. E, sendo a virtualidade um fator comum à todo Homo sapiens sapiens, a hipótese, em suma, não poder ser descartada.

 

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