Sobre a embriaguez das nossas escolhas.

Do que se trata?

Uma perspectiva ocidental inspirada na denuncia à embriaguez do homem frente às suas escolhas, feita pelo místico e poeta indiano Kabir, um dos santos-poetas da Índia Medieval.

Sobre a embriaguez das nossas escolhas.

As grandes escolhas – escolhas que acompanham o homem por toda a sua vida, como profissão, carreira, permanecer na mesma cidade em que nasceu, mudar de cidade, mudar de país, casar cedo, não casar, se converter à uma religião, filiar-se à um partido, … – passam, a partir do momento que são feitas, a serem companheiras de vida.

O monge, aquele devoto à vida monástica, tem como consequência da sua escolha, a sua embriaguez pelo prestígio de ser o que é. O pastor, vive embriagado do privilégio de ser íntimo de Deus. O padre (celibato), é embriagado pela vaidade de ser santo; de nem mesmo cometer o que considera “o pecado original”.

Isto me lembra muito bem ao romance, escrito por Gustave Flaubert, chamado ” As Tentações de Santo Antão”(1874). Em que, Antão, ao provar-se totalmente capaz de resistir à qualquer tentação diabólica, o diabo desiste, deixando o santo borbulhar de si, cheio da sensação de mérito e gratidão, que agradeceu: “Obrigado, agora sou santo!”. E esta foi a sua embriaguez. Ela o fez esquecer de seu inimigo, o ladrão que deseja roubá-lo; o diabo. Antão, na história de Flaubert, caiu na embriaguez da vaidade de ter vencido o maior inimigo do paraíso. E foi neste instante que aquele que veio para roubar, matar e destruir, recebeu a motivação que precisava para voltar com alegria ao santo.

Esta história, por mais que ocidental, exemplifica muito bem a lição que o místico indiano Kabir quer nos passar. É quando estão todos embriagados no conforto das suas rotinas, nas realizações das suas escolhas, que há espaço para que o ladrão entre e roube a todos sem que ninguém veja. Aproveitando-se de toda embriaguez. Por isto, o que Kabir quer dizer é que é melhor que tomemos nossas escolhas, sem nos permitir o estado de embriaguez, mas o de clareza. Ele prega ao indiano que é a atenção plena e constante observação da própria vida que permite, que na chegada do ladrão, ele não possa lhe furtar devido à sua clareza e consciência de si.

O médico, por muitas vezes, se embriaga pelos mecanismos físicos do corpo e esquece que atende seres humanos. O vendedor, as vezes, esquece que se vender o que seu cliente não quer comprar, ele pode não voltar mais. A mãe dedicada à escolarização do filho pode esquecer de educá-lo, de ensinar sobre a vida… Mas a verdadeira questão que devemos levar é:

Do que você esta embriagado?

Isto pode te custar algo? Se sim, o quanto isso pode custar?

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